
"As nossas relheiras aqui estão, feitas monumentos dos duros tempos em que cada pedaço de pão, cada grão de novidade, cada rama de cedro para acender o forno, eram arrancados à terra com o suor dos corpos mal nutridos, talvez com o sangue, seguramente com as lágrimas, dos nossos antepassados que por estas ilhas desbastaram mato, arrotearam terras, abriram caminhos, definiram modos de trabalhar a natureza sem lhe retirar a alma, e de nela viver. Elas trazem-nos a memória disso -- a memória de tempos e pessoas e modos de trabalhar que não estão assim tão longe de nós, porque muitos de nós ainda viram, em plena utilidade, aquilo que para os nossos filhos nada mais será do que ecos de um passado que o asfalto escondeu -- e as carrinhas e tractores tornaram desnecessários. Mas elas existem, as relheiras. É disto, desta epopeia do homem que faz da natura cultura, que nos falam estes singelos monumentos que são as nossas relheiras. E nós, que tantas vezes passamos por elas sem as reconhecer, ficamos mais prezados: elas são uma regra da cultura que fez de nós aquilo que somos. Sem elas, sem a memória que nos trazem, e sem a alma que nos constrói a memória, ficaremos uma espécie de cadáveres que procriam. Felizmente, as relheiras ainda existentes no basalto da Terceira são objectos resgatáveis e significativos por si só, sendo o seu levantamento possível através da recolha de informação documental e testemunhal, neste caso sobretudo junto de velhos lavradores e condutores de <b>...</b>
Relheiras
A Passagem das Bestas
Documentário
António Araújo
Açores
ART
Azores
Terceira
Azores Islands
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